Contra momentos sombrios: diálogos abertos e democráticos

 

Por Lázaro Araújo e Carolina Neves


As marcas perversas no Encontro de Pesquisa em Comunicação da Amazônia (EPCA), em sua segunda versão, em 2018, estão definidas como acontecimentos de “tensão e conflito”, do espectro de um fantasma da obscuridade a se lançar sobre o “pluralismo e a diversidade” cultural e comunicacional, em âmbito americano, quiçá mundial. Não é possível fugir dessa conjuntura política de avanço e vitória eleitoral de uma concepção ideológica ultraconservadora e de feições fascistas, que nos abateu, também, no Brasil. São tensões irradiadas nas declarações de quem compôs a mesa que oficializou a abertura do EPCA deste ano.

Na cerimônia de abertura deste ano, a palestrante foi a professora Marlise Matos, do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais e Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher – NEPEM e do Centro do Interesse Feminista e de Gênero – CIFG (UFMG). O tema deste ano foi “Violência política, violência política sexista: a linguagem da desdemocratização.”

Para a Profa. Marlise, assim como para os que a antecederam na mesa, este momento brasileiro em que nos encontramos é de “lamento e repúdio” quanto à escolha feita pela população ao eleger um presidente que nos ameaça com momentos “tumultuados nos próximos anos”. Ela fala de controle e exclusão de determinados segmentos da sociedade nos espaços políticos e públicos. A professora lembra, em sua fala, o dia da consciência negra, ocorrido neste dia 20 de novembro, para se referir a um “alvo” preferencial da violência racial e social – os negros pobres –  e se posicionar contra narrativas colonialistas, tais como “democracia racial” e a ideia de que “somos um povo cordial”. Para ela, com acerto, a máscara caiu e a face violenta foi revelada, a crueza cotidiana ficou clara. “Um horizonte ético e cultural que tínhamos em relação à democracia, como valor, ficou distante e vemos surgir a desdemocratização”.

Desdemocratização?

Segundo a professora, estamos passando por momentos de clara desdemocratização. “Democracias nascem e morrem, elas são históricas e portanto não são imortais,” argumentou Marlise. Em sua fala, a professora discutiu sobre como o crescimento da violência política mostra que nos encontramos num “processo no mínimo de agonia democrática.”

O processo de desdemocratização, então, se trata de um processo em que a democracia se reconfigura. “Sempre tivemos no nosso horizonte a democracia como um valor,” explica a professora. “E o que me angustia é que se construímos nos últimos anos esse horizonte, os eventos recentes na nossa política nos afastaram disso.”

No entanto, é na “esteira desse antagonismo” que ergueremos nossa trincheira de luta e resistência, cimentada no trabalho de parceria, de enlaces de afetividades, entre mestrandos e graduandos de Comunicação de duas das mais importantes universidades da Amazônia paraense: UFPA e Unama. E da reconhecida participação e colaboração efetiva de pesquisadores de alto rendimento e palestrantes destas instituições e de nossa Pan-Amazônia. É nesse contexto “horizontal de diálogo” que fomentaremos reflexões, ideias e pensamentos críticos, compartilhados, debatidos, os quais serão contraposição ao universo comunicativo mundial, cheio de meios, de redes, de narrativas, de discursos, no qual “fala-se muito e ouve-se pouco”.

Em nossa conferência, a Profa. Marlise Matos nos instigou ao afirma que a democracia não é só um regime político e sim um modo de viver. A democracia não se encontra apenas em relações antagonistas ou dentro de instituições, mas sim em todos os momentos. Afinal, pesquisar é resistência. Viver é resistência.

O EPCA, em sua segunda edição, fomenta a comunicação democrática e, deste modo, reforça a democracia da comunicação, que vem abrir espaço para o conceito de desdemocratização trazido ao debate. Assim fechamos, o primeiro dia do evento, após a inquietante palestra da professora doutora Marlise Matos.

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