Sexo e gênero conversam com comunicação e política

Sexo e gênero conversam com comunicação e política

Por Raoni Arraes

Três assuntos da mais rica importância – a questão racial, a homoafetividade e o trabalho infantil doméstico – começaram dialogando entre si na palestra “Gênero e Sexualidades: interfaces entre o comunicacional e o político”, no último dia do Encontro de Pesquisa em Comunicação na Amazônia (EPCA 2018), na Universidade Federal do Pará (UFPA).

A professora doutora Mônica Prates Conrado, do Programa de Pós-Graduação de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGSA/UFPA), começou dizendo que a discussão sobre a discriminação de raça e gênero não pode ser condicionada pela “adição”, pois se trata de uma “interseção” envolvendo a mulher, negra e pobre, que sofre os efeitos de uma narrativa colonialista, que naturaliza os estereótipos, e encontra reverberação no etnocentrismo também reforçado na própria universidade.

Essa é uma questão central que deve ser pauta da comunicação, pois o caráter de gênero e raça são categorias relacionais”, argumentou a professora, destacando a necessidade de se buscar “outras versões, outras narrativas, outros olhares” sobre essa causa de exclusão e discriminação que conforma e define a vida em sociedade. Mônica Conrado pontuou que o “racismo está associado ao sexismo” e que esses elementos são categóricos políticos que são definidos pela “lógica hierárquica da subalternidade”.

A professora doutora Danila Cal, do Programa de Pós-Graduação e Comunicação da UFPA, começou lendo dois relatos de meninas, trabalhadoras domésticas, que emocionou o público presente, narrando angústias, constrangimentos, assédios e dores vividas pelas entrevistadas na relação com os patrões. Essas entrevistas estão no livro da professora “Comunicação e trabalho infantil doméstico (política, poder e resistência)”, publicado pela EDUFBA. Danila Cal defende que o trabalho doméstico “é uma categoria heurística que pode explicar e entender o Brasil”.

Para ela, essas mulheres agregam na sua existência e perversa experiência “possibilidades de agência”, que é traduzida pela capacidade de ação autônoma e de ensejar um pensamento e uma ação política e comunicacional a respeito da subalternidade, destacando a fala do “subalterno”, que pode desafiar e contestar a “lógica sexista”. Danila viu, no decorrer do trabalho de pesquisa, elementos de uma conjunção para além do individual, traduzidos nas expressões “nós temos, nós vivemos”, o que reflete um “sentido coletivo” de ação, e vislumbra uma possibilidade real de “engajamento político”, com muita coisa para ser dita, para todos nós.

A terceira vertente dessa discussão foi exposta pelo mestre e jornalista Elias Serejo, do Pragrama de Pós-Graduação em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia (PPGCLC/Unama). Elias tratou da questão homoafetiva com muita propriedade. Entre muitos questionamentos levantados pelo pesquisador, nos chamou atenção a questão relacional do “reconhecimento” de uma condição familiar que é expressa socialmente pela “família nuclear patriarcal hetero-sexista”, que define família como sendo a composta por homem, mulher e descendentes, que recebeu confirmação política recente por ocasião do “impeachment” da ex-presidenta Dilma Rousseff, quando congressistas diziam, em alto e bom som, na hora da declaração do voto: “digo sim, em defesa da família”.

Mas de que família se fala? Pois nas pesquisas feitas por Elias ficou constatado que essa família da tradição patriarcal imposta, que também é reforçada em muitas relações homoafetivas, não se sustenta, e isso quer dizer que não é esse o tipo de família que define a família brasileira de hoje, “não é a família predominante nos lares brasileiros”. Existem outras famílias que não se enquadram nesse patrão estabelecido pelo poder político e ainda hegemônico no contexto social brasileiro.

Esta matéria jornalística não cobre todas as questões levantadas pelos palestrantes, mas dá uma ideia do quanto é importante discutir esses assuntos no atual contexto político e comunicacional da sociedade brasileira.

Elielton Gomes, doutorando em História da UFPA, presente no evento, disse que recebeu “informações novas”, expostas nas palestras, que dialogam com seu objeto de estudo atual. “Mulheres negras da periferia vistas como objeto”, referidas pela professora Mônica. Ele também se referiu aos abusos sexuais domésticos, refletidos na fala da professora Danila, como sendo assuntos próximos que “estão do nosso lado e muitas vezes não vemos, não atentamos, ou preferimos não ver”. Para ele é importante fazer com que as mulheres criem a “agência”, uma estratégia de se colocar e se posicionar como sujeitos ativos da história, denunciando essa condição de opressão e assédio.

Raissa Lennon, mestre em comunicação pela UFPA, reforçou que nesse momento político brasileiro de perdas de direitos, uma mesa de debates que discute gênero, raça e sexualidade, pode ser considerada a mais importante do EPCA, ainda mais quando direciona a discussão para a política e comunicação. “O jornalismo trata essas questões de raça, gênero e sexualidade de forma simplista e estereotipada”. Ela convida os agentes da comunicação a mudar essa mídia e esse posicionamento dominante que ainda é vigente.

 

Texto: Lázaro Araújo (Comissão de comunicação EPCA)

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