Comunicação pela cidadania

Comunicação pela cidadania

Solidariedade, mobilização, luta, empatia, comunidade, alegria, respeito e amor. Qual a relação entre essas palavras? As possibilidades são inúmeras, mas, no encerramento do III Encontro de Pesquisa em Comunicação na Amazônia (EPCA), elas foram usadas pelo público para resumir o significado das práticas de comunicação popular, comunitária e alternativa na busca pela cidadania.

O estímulo para essa reflexão veio da conferência proferida pela professora da Universidade Anhembi Morumbi (SP) Cicília Peruzzo, uma das principais referências em pesquisa sobre o tema no país. A pesquisadora situou o surgimento dessas iniciativas em um contexto de profundas e diversas desigualdades, como a fome, a violência de gênero e o racismo, cujas origens estão intimamente ligadas às contradições das relações de classe. Nesse cenário, os movimentos sociais emergem como formas de organização das classes subalternizadas na luta por seus direitos. “São formas de resistência e de conquista que apontam para outro tipo de realidade e outro tipo de sociedade”, definiu a professora.

Para Cicília Peruzzo, esses aspectos de mobilização e de visibilização de outras visões do mundo são traços comuns a diferentes ações de comunicação popular, comunitária e alternativa, que, contudo, se materializam das formas mais diversas. Podem estar nos tradicionais boletins e zines, mas também se apropriam das possibilidades dos recursos tecnológicos, como se observa na rede de telefonia celular Rhizomática, criada e operada por grupos indígenas no México. Está também no uso do aplicativo Onde Tem Tiroteio (OTT), baseado em informações de cidadãos comuns a fim de alertar sobre a ocorrência de balas perdidas, arrastões e falsas blitz que comprometem a segurança de pessoas nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. E, ainda, no trabalho do coletivo de comunicação popular e produção audiovisual Tela Firme, realizado por moradores, sobretudo jovens, do bairro da Terra Firme, em Belém.

Essas e outras iniciativas citadas durante a apresentação apontam, segundo Peruzzo, para uma qualificação da noção de direito à comunicação. “Elas demonstram o poder de ter direito de comunicar, de passar de receptor a produtor. Quando se tem domínio dos canais de comunicação, se tem acesso aos meios de comunicação na condição de protagonistas”, disse a professora que observa nessas formas a comunicação na mediação das lutas sociais.

Apesar das possibilidades desse ambiente comunicacional, é preciso estar alerta para os riscos que ele traz consigo. “Os algoritmos são nossos controladores”, disse a professora, que criticou os monopólios da comunicação na internet e as práticas de midiativismo incívicas, que se utilizam do suposto exercício do direito de liberdade de expressão para fazer circular manifestações de ódio que são contrárias aos direitos de cidadania.

As visões críticas sobre a realidade, os desafios que essas situações impõem e sonhos que se pode alcançar rondaram essa e outras falas que marcaram a terceira edição do EPCA, que encerrou reafirmando a necessidade de um posicionamento político dos pesquisadores em Comunicação e um compromisso com o desenvolvimento e socialização do conhecimento na Amazônia.

Texto: Fabrício Queiroz

Foto: Roberta Brandão

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