Debate sobre Narrativas e Vulnerabilidades abre programação do EPCA 2019

Debate sobre Narrativas e Vulnerabilidades abre programação do EPCA 2019

As relações dos discursos midiáticos com as opressões e violências vividas por grupos minoritários estiveram no centro das discussões na mesa de abertura do III Encontro de Pesquisa em Comunicação na Amazônia. A mesa “Narrativas e Vulnerabilidades” foi composta pela Profa. Dra. Cynthia Mara Miranda (PPGCOM/ UFT), pelo Prof. Dr. Leandro Lage (PPGCOM/UFPA) e contou com a mediação da Profa. Dra. Maíra Evangelista de Sousa (PPGCLC/UNAMA).

Durante a discussão, a professora Cynthia Mara Miranda tratou da pesquisa que desenvolve no pós-doutorado sobre feminicídio. Apesar do tema ser recente no debate público brasileiro, já que somente em 2015 o crime de feminicídio foi tipificado no Código Penal Brasileiro, essa noção foi usada pela primeira vez no ano de 1876, na Rússia, para dar visibilidade aos atos baseados em violência de gênero. De acordo com a pesquisadora, trata-se de um crime de poder e exibição da capacidade de domínio sobre a mulher. Uma realidade muito presente no contexto amazônico, onde o estado de Roraima aparece como o mais violento em relação aos crimes contra a mulher, segundo dados do Atlas da Violência 2018.

Diante desse cenário, uma preocupação é o tratamento da mídia dado ao tema. Para Cynthia Mara Miranda, a comunicação poderia dar uma contribuição no sentido da educação e prevenção de novos casos, porém ainda prevalece uma abordagem que privilegia os interesses mercadológicos e lucrativos, em que a busca por audiência leva à espetacularização do crime e a elevação do agressor ao status de um “monstro potente”. Na visão da pesquisadora, o feminicídio precisa ser pautado com responsabilidade social, com as devidas problematizações, e não espetacularizado de maneira perversa.

Vulnerabilidades – O professor Leandro Lage abordou a temática da a partir da pesquisa “Vidas pretas, vidas precárias: vulnerabilidade em Judith Butler”, na qual destaca o quanto a sociedade atual, marcada pelo lema da “resiliência” e do “ser forte”, ignora situações que fogem desse discurso, favorecendo processos de apagamento dos discursos, a indiferença, o ódio e os discursos de deslegitimação.

A principal referência do trabalho é a filósofa Judith Butler, que compreende que a sociedade enquadra as vidas de determinados sujeitos como “dispensáveis” e, por isso, é necessário questionar normas baseadas no racismo, no machismo e em outros fatores de depreciação do ser humano.

Um exemplo disso é que as taxas de homicídio no Pará registram que cerca 75% das vítimas são pessoas negras. Para o pesquisador, tais dados ajudam a entender que existem populações “perdíveis” e que podem ser sacrificadas a ponto de serem encaradas como “ameaças” à sociedade. Parafraseando Buthler, o professor Leandro Lage destacou que a perda de determinadas vidas é entendida como “necessária” para a proteção dos “vivos”. Para ele, muito mais que discursivo, este é um problema político-perceptivo, em que se precisa problematizar e revisar de maneira permanente as normas que reproduzem os estereótipos sobre as vidas que “importam” e as que “não importam”.

A mesa “Narrativas e Vulnerabilidades” foi promovida com o apoio do PROCAD-Amazônia, projeto de cooperação entre a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade Federal do Tocantins e a Universidade da Amazônia. A iniciativa busca promover a formação de recursos de alto nível e fortalecer os programas de pós-graduação por meio de produção científica qualificada, intercâmbio de alunos, entre outras ações.

Texto: Rodrigo Silva

Foto: Camila Guimarães

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