Lutas e afetos

Lutas e afetos

Noite de quarta-feira, 20 de novembro, dia da Consciência Negra. O espaço todo ocupado, repleto de corpos, olhares e ouvidos ansiosos mostrava que aquele seria um momento especial. A atração era a conferência “A Sociedade Incivil”, um título provocador e condizente com a perspectiva crítica do professor Muniz Sodré, um dos principais nomes da pesquisa em Comunicação e Cultura no Brasil.

As problematizações esperadas se fizeram presentes. O pesquisador contextualizou a noção em torno de um cenário de capitalismo financeiro e midiatização que transforma as formas clássicas de democracia. Uma ambiência em que se confunde cidadania com uso de artefatos eletrônicos e que implica na constituição do sujeito que se vê assediado de diversas maneiras pelo mais sedutor dos valores da atualidade: a velocidade.

Assim, as faculdades de instantaneidade, ubiquidade e globalidade, antes reservadas ao divino estão à palma da mão de todos. O resultado é uma retração da política e a elevação de formas sutis de ditadura impostas por meios empresarias e pelas instituições financeiras. “O grande desafeto da democracia é o capitalismo financeiro”, afirmou o professor.

Mas diante de um contexto tão forte e quase desolador, Muniz Sodré apontou caminhos de enfrentamento e que, às vezes, passam despercebidos pela reflexão acadêmica porque se encontram na dimensão afetiva. Para ele, o futuro dos processos democráticos está na potência popular em lutas que materializam o conceito de axé. Conciliando ciência e saberes ancestrais, o professor, que também é da hierarquia do candomblé, explicou que: “Os nagôs iorubas têm dois tipos de força. Uma eles chamam agbára: você empurra uma pessoa, essa pessoa lhe empurra de volta. É força contra força. Existe uma outra, que é o que o baiano chama axé. Axé não é força contra, é força pró. O sujeito lhe empurra, mas você não se move do lugar é porque você está fortalecido. Você não precisa de violência. Eu sinto que a luta democrática hoje, o reestabelecimento da ideia de democracia é mais com axé, com força pró, do que com força contra”.

Logo, com o axé como alternativa, Muniz Sodré defendeu um olhar e um engajamento por políticas de conexão baseadas no afeto. “Essa democracia no popular, na vida das pessoas está nesse reconhecimento das diferenças, portanto, na luta antirracista, na luta antihomofobia, no respeito entre os gêneros. Aí tem uma nova democracia que é difícil de aceitar, que é difícil de ver, mas ela já está aí”, declarou o pesquisador que resumiu seu pensamento com mais uma lição ioruba: “Quem não respeita, não aprende”.

Tais palavras não poderiam ter melhor acolhida. Na abertura do evento, elas já estavam presentes nas canções de Thais Badu, que com sua mistura de reggae, rap e ritmos amazônicos cantou sobre suas vivências enquanto mulher negra. A mensagem de resistência também está nos agradecimentos da comissão organizadora, representada pelo doutorando Elias Serejo.

“Sabemos que o fascismo se fortalece na morte da reflexão e da diversidade, e é por isso que o EPCA é resistência, porque aqui nesse espaço de diálogo celebramos as diferenças, reconhecemos nossas lutas e de nossos pares. Logo, definir a temática desta edição não foi assim tão complicado. Ao estabelecermos como tema desta edição Comunicação e Resistência: Ameaças à Democracia, Lutas por Reconhecimento e Políticas do Cotidiano estamos conclamando todas e todos a seguirem de pé, erguidos em dignidade, não apenas por nós, mas também por quem não possui espaço para erguer suas vozes”, diz a carta demonstrando que com lutas e afetos se faz política e também conhecimento.

Texto: Fabrício Queiroz

Fotos: Roberta Brandão

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