Mesa discute resistência e representatividade indígena e quilombola

Mesa discute resistência e representatividade indígena e quilombola

A mesa “Resistências quilombolas e indígenas: trajetórias e lutas por reconhecimento” abriu os trabalhos do último dia do EPCA 2019. O painel contou com pesquisadores e representantes dos movimentos sociais que refletiram sobre o papel e a abordagem da comunicação ao retratar esses grupos identitários.

Composta pela Prof.ª Dr.ª Janine Bargas (UNIFESSPA), pela Msc. Camille Nascimento (PPGCOM/UFPA), pelo Pajé Timeí Assurini (Etnia Awaete-Assurini do Xingu), pela designer Carla Romano (ESPM) e pela graduanda em jornalismo Heloiá Carneiro (Facom/UFPA), a mesa trouxe para o debate não somente conteúdos acadêmicos desenvolvidos em suas teses, como também a vivência dos debatedores dentro deste contexto e os desafios que eles enfrentam ao tentar se inserir no contexto social urbano.

Território e sociabilidade Durante a discussão, a professora Janine Bargas comenta a relação de comunidades quilombolas com as mídias digitais, suas lutas por terras e por reconhecimento. Em sua pesquisa de doutorado, a professora conclui que grupos étnicos como os quilombolas estão fortemente ligados a seus territórios, de modo que, a retirada destes povos das suas terras pode gerar um impacto incomensurável nestas comunidades.

A conclusão dessa pesquisa torna-se ainda mais preocupante a partir de outro aspecto relembrado pela professora: o Pará é um dos estados com maior índice de conflitos violentos, entre povos originários, que lutam contra a ocupação de seus territórios por parte de grandes produtores do agronegócio e da mineração. Dentro deste contexto, o questionamento recai sobre discursos do governo sobre a demarcação de territórios destinados a estes povos e a constante deslegitimação das necessidades dessa população quanto ao seu espaço de ocupação e construção de identidades socioculturais.

As dificuldades de comunicação causadas pela precariedade de acesso à internet e a computadores com banda larga dentro das comunidades acabam tornando a realidade ainda mais difícil. Em relação ao uso de celulares a tese da professora Janine revela que a maior parte dos usuários e usuárias com acesso a esse recurso são estudantes das universidades e mulheres ligadas a movimentos como a Marcha das Mulheres Negras.

400 anos de que? Para a mestranda Camille Nascimento, outro fator influente na construção social de estereótipos produzidos pelo senso comum a respeito dos povos originários é o enquadramento priorizado pela mídia. Em sua pesquisa, a mestranda observa os discursos produzidos pela presença indígena em grafites espalhados na cidade. A partir de bases teóricas foucaultianas, Camille lança um olhar sobre o silenciamento destes povos na sociedade e a ausência de representatividade nos governos.

A pesquisadora revela a existência de uma cultura de colonização velada, exemplificando um caso recente que teve pouco destaque na pauta pública. Durante o ano de 2016, Belém teve diversas peças publicitárias divulgando a comemoração de seus quatrocentos anos, “mas quatrocentos anos de que?”, questiona Camille. Para ela, a publicidade neste caso apenas exaltava a colonização, o que, para um país onde seus nativos foram dizimados por genocídios promovidos por europeus, é extremamente problemático.

Vivências – Incluindo conceitos da psicologia aliados à comunicação, a designer Carla Romano critica a sociedade de consumo e o impacto de novas tecnologias na vida dos indivíduos. Nos dias de hoje, segundo Carla, a informação se tornou produto de mercado, com uma demanda constante e insaciável. Em decorrência desse excesso de informações vivemos o processo inverso, na qual a despeito da quantidade absurda de informação disponível, produzimos uma sociedade cada vez mais desinformada e menos humanizada.

A partir de suas vivências pessoais, o pajé Timeí Assurini e a estudante Heloiá Carneiro fazem a crítica ao academicismo, destacando que as pesquisas acadêmicas sobre povos originários não falam apenas de números, de resultados e dados estatísticos, mas de seres humanos. Em sua fala, Timeí critica a desvalorização do conhecimento indígena por parte da academia e ressalta que os povos indígenas não desejam poder ou soberania, apenas respeito e reconhecimento.

Para Heloiá, o maior desafio dos estudantes quilombolas é a permanência na universidade. Segundo ela, a inclusão é um entrave, pois apesar da distância física não ser realmente expressiva, a realidade dentro dos quilombos é diferente da dos grandes centros urbanos, e cabe à universidade, como responsável pelo ingresso desses e dessas estudantes, a criação de mecanismos que possibilitem um processo inclusivo e que evitem a evasão. Heloiá ressalta que muitas dessas pessoas vêm até a academia buscando adquirir novos conhecimentos para aplica-los em suas comunidades .

A mesa cumpriu sua proposta de estabelecer um espaço rico de diálogos sobre o campo da comunicação, a Amazônia e as produções científicas acerca de povos tradicionais, oferecendo tensionamentos e discussões sobre os processos de resistência. Foi discutida também a necessidade de reconhecer a importância do protagonismo de lideranças pertencentes a estes grupos sociais e de uma escuta ativa por parte da comunidade acadêmica e da sociedade, como um todo.

Texto: Thiago Vasconcellos

Fotos: Gabriel Mota

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